Amor

Um casal de idosos, Georges e Anne, leva uma vida tranquila, até que um dia a esposa sofre um derrame. As dificuldades que eles passam fazem com que encarem grandes mudanças na rotina e reafirmem o seu amor.

Amor

Michael Haneke é um diretor conhecido não só por incitar o público, mas também por afrontar, perturbar, provocar. No início de Amor, uma platéia num teatro está posicionada de uma maneira como se nós, espectadores, estivéssemos sendo observados. O plano é muito longo e incomoda. Seríamos nós o filme?

Ainda na primeira parte da projeção, o breve evento do estado catatônico de Anne e a tentativa inútil de Georges de reanimá-la, constitui o primeiro e angustiante clímax. O som da torneira deixada aberta enquanto o marido vai buscar ajuda aumenta ainda mais a ansiedade da situação.

Haneke parece tratar a água como uma grande metáfora para os acontecimentos. Em diversos momentos a torneira é deixada aberta, dando a impressão de desperdício e de que algo está acabando e nada pode ser feito a respeito. Até o sonho de Georges envolve um corredor inundado. E é fascinante notar que apenas após determinado episódio a torneira é fechada. E mesmo os pratos são lavados com água de uma bacia.

Apesar das alegorias, o ensaio sobre o amor aqui é tratado de maneira simples. O marido que tem um medo imenso do que pode acontecer com a esposa e zela intensamente. Até mesmo não dorme para ouvir a sua respiração. Mas que também cansa à medida que ela cansa e que sofre, pois não admite que ela sofra. E questionar a existência nesse paradigma é questão de tempo.

Talvez a sequência mais forte nesse quesito seja quando são postas lado a lado cenas de Anne tendo suas fraldas trocadas e da época em que ainda tocava o piano de forma vigorosa. Porém o som do piano acaba sendo revelado que vinha de um CD player que Georges hesita, mas acaba desligando.

O longa tem um desenvolvimento lento. Algumas vezes a câmera até fica parada enquanto ouvimos as vozes dos personagens em outros cômodos. Vemos cenas da casa à noite, vazia. Os longos planos têm dois efeitos: ditam o ritmo da vida do par protagonista e nos aproximam da história, já que a ausência de cortes imputa realismo.

Os demorados trechos citados não influenciam apenas na linguagem cinematográfica, mas também na construção do filme. Isso porque gravar em apenas um plano uma sequência de eventos muito complexa faz logo pensar nas atuações.

Dito isso, é preciso reconhecer o brilhante trabalho dos atores. Jean-Louis Trintignant faz um Georges que, apesar de idoso e já locomover-se com dificuldades, ainda é bastante lúcido e ativo. Mas mostra um esgotamento físico e mental no decorrer da obra. Já Emmanuelle Riva faz uma atuação que sempre impressiona, a de um doente com severas restrições físicas. É incrível a sensação que ela passa de estar aprisionada dentro de um corpo que já não lhe responde.

Amor é, assim como sugere o nome, uma simples história sobre esse sentimento. Retratado diferente do que costumamos ver na maioria das produções. Mais simples, mais intenso, mais doloroso. E mais real. A cena da platéia faz sentido agora: essa história também poderia acontecer do outro lado da câmera.

Leigômetro: ★★★★☆ 

Ficha Técnica
Amor (Amour, 2012)
Direção e roteiro: Michael Haneke
Elenco: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert

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Uma resposta para Amor

  1. Latisha E. Stark 05/08/2013 às 15:45 #

    Assim como Hitchcock levou a psicanálise para o cinema, tanto pela construção dos dramas humanos como em citações claras sobre o Complexo de Édipo e outros, Haneke, também estudioso da psicologia e da filosofia, apresenta em Amor uma representação por imagens do pensamento freudiano de que o “impulso de vida e o impulso da morte habitam lado a lado dentro de nós. A morte é a companheira do amor. Juntos regem o mundo”.

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