A Invenção de Hugo Cabret: Scorsese falha no emocional

Comparando com seus últimos três trabalhos, A Invenção de Hugo Cabret está mais para O Aviador do que para Os Infiltrados ou A Ilha do Medo. Isso porque seu novo longa é tecnicamente impecável, porém peca na parte emocional e é um tanto quanto arrastado. Isso é um defeito ainda mais grave por se tratar de uma aventura infantil. O que pode ser explicado por sua “inexperiência” no gênero.

O roteiro de John Logan, adaptado do livro de Brian Selznick, acompanha o personagem do título (Asa Butterfield) – um órfão que vive escondido nos complexos túneis de uma estação de trem em Paris na década de 30 – e sua obsessão pelo conserto de um autômato (uma espécie de androide) encontrado por seu pai (relojoeiro que ensinou o ofício ao garoto) antes de morrer num incêndio. Ocorre que Hugo acredita haver uma mensagem do seu pai guardada no autômato. Para isso ele vive “roubando” engrenagens e ferramentas que encontra nas diversas lojas da estação. Numa de suas “caçadas” ele acaba sendo pego pelo dono de uma loja de brinquedos (Ben Kingsley) que, em troca de não entregá-lo ao inspetor da estação (Sacha Baron Cohen), o obriga a trabalhar na loja para pagar as diversas peças que surrupiou. Nesse meio tempo, Hugo acaba fazendo amizade com a afilhada do dono da loja, a jovem Isabelle (Chloë Grace Moretz), com quem irá embarcar na aventura de descobrir a suposta mensagem. Tudo isso, no entanto, é apenas um pretexto para uma história que, assim como em O Artista, no fundo é uma grande homenagem a sétima arte.

Antes de qualquer “análise”, aproveito para confessar que não conheço a obra literária na qual Scorsese se baseou. Dito isto, Hugo é uma produção tecnicamente impecável: da fotografia à direção de arte, passando pela trilha sonora e figurino. Não a toa, o longa concorreu e levou a maior parte dos prêmio técnicos do Oscar 2012. Scorsese é um exímio conhecedor de seu ofício e isso não é novidade. A fotografia com a direção de arte, criam uma imersão deveras eficiente numa Paris dos anos 30. Não bastasse isso, a bela trilha sonora complementa a experiência e faz com que o espectador queira visitar a estação de trem onde Hugo vive.

Sobre a trilha sonora, um detalhe interessante é quanto a origem da mesma. Explico: em vários momentos (confesso que não observei se é em todos) a trilha tem origem no próprio universo do longa. Ou seja, se estamos ouvindo um violino ou uma flauta em ritmo acelerado numa perseguição, momentos depois vemos que na verdade, essa música está sendo tocada por músicos presentes no filme. Num dado momento, por sinal, os personagens se esbarram nos músicos e a trilha é interrompida.

Os efeitos visuais, aliados a uma fotografia retro, são belíssimos e dão o tom de fábula da obra. O que tornam as impossibilidades do longa (como a de um garoto de 12 anos ser o responsável por manter todos os relógios da estação funcionando) bastante críveis. Particularmente, achei o visual de Hugo, ainda que bem mais “contido”, bastante semelhante ao do musical Moulin Rouge.

É uma pena, no entanto, que com todas essas qualidades, a película peque justamente na parte emocional. Digo isso porque por tratar-se de uma história que necessite de uma conexão com o protagonista (é uma aventura infantil e precisamos torcer pelo “herói”), o diretor precisaria de um ator com um carisma suficiente para conquistar o público e não é isso que acontece. Butterfield apresenta uma interpretação insossa que beira o antipático. Isso faz com que a empolgação e o ânimo imprimidos por Moretz soem artificiais. Sem falar que o ritmo do filme é um tanto quanto arrastado para uma aventura infantil.

Talvez Scorsese devesse se espelhar em Spielbgerg, que em tantas obras soube usar como ninguém o talento de seus atores mirins para emocionar platéias por várias gerações. Vide E.T., Inteligência Artificial e, até mesmo, seu remake de Guerra dos Mundos. É uma pena que toda a competência e conhecimento cinematográfico de Scorsese sejam desperdiçados num projeto que, apesar do potencial, falha no trabalho de atores. Ainda que o resultado final não seja um primor (emocionalmente falando), Hugo é um filme com apuro técnico impecável. E não deixa de ser louvável, ver um cineasta consagrado pisando em terreno desconhecido. Quem sabe na próxima?

Leigômetro: ★★★☆☆ 

Ficha Técnica
Hugo (2011)
Direção: Martin Scorsese
Com: Asa Butterfield, Chloë Grace Moretz, Ben Kingsley, Sacha Baron Cohen, Ray Winstone, Emily Mortimer, Christopher Lee, Helen McCrory, Michael Stuhlbarg, Frances de la Tour, Richard Griffiths, Jude Law

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